sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chuva Nascente


Eu nasci em um dia de chuva, com barulho fino na janela. Barulho fino e contínuo, quase um incômodo.

Acho que vem daí essa minha irritação pelas constâncias, essa minha aflição pela persistência.
Não confunda com latência. Essa ficou grudada pela chuva fina na vitrine do mundo.

Seria apenas mais um dia molhado abafando o assovio do vento, mas eu estourei: engolindo a vida toda em um único berro.

E assim que é até hoje, esse meu exagero de dentro.
Um fim de mundo de nascença.


Samantha Abreu
foto de pawel-stefaniak

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Olha o LONDRIX aí!


Começa nesta terça, 20 de setembro, o LONDRIX - Festival Literário de Londrina.

Acesse o site e veja quanta coisa bacana na programação:

Na quinta, 22 de setembro, estarei lá com o meu FANTASIAS PARA QUANDO VIER A CHUVA, vídeo-poemas e muitos amigos.
Apareça!

domingo, 18 de setembro de 2011

GUERRILHA

foto de eugenio recuenco

A gente finge que sente o que gostaria de sentir se não fingisse.
Simulo que não, ele provoca que sim. E tem fácil acesso, nome na lista, ingresso vip. Entra, carrega as malas, as balas e todos os concordantes motivos. Ele me arranca os sorrisos, os suspiros. Arrasa todos os atinos.
Faz que não faz e desfaz a completa certeza do não.
E daí já não sei já não importa: roupa, brincos e cordas. O banco de trás, o beco e o balcão: guerra indeclarável pelo território alheio. Língua na boca do outro e cerveja esquentando na mão.
Enquanto ele derrete, eu sua. Meu líquido e rubro amor que escorre. Terra invadida que toma e ferve por toda a veia que corre, briga no escuro, gangue de rua.
Antes do fim, a não morte do que arde. A não morte do que pega e do que invade.


Samantha Abreu

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PANDORA



Mulher de muitos cabides, acostumei a manter as fantasias esticadas e livres.

Quando as dobrei para guardá-las na mala de fuga, comecei a sentir as dores. A cada dobra uma contração de parto retido. A primeira fisgada na altura do ventre, depois nos seios e nos braços.

Empilhei fantasia sobre fantasia dentro da minha bolsa de segredos intocáveis. Contorcidas, gemiam umas sob as outras.

Mas foi no momento de trancá-las que começaram os gritos. Já me acostumei às contínuas dores e ardumes das dobras, mas os gritos... os gritos...

Eu, Pandora desvairada, já não posso mais pendurá-las. Hoje me amedronta desatar tanta amargura entre elas abafada.



Samantha Abreu
texto do livro "Fantasias para quando vier a chuva"
foto de delilah woolf